O mundo fantástico da Sardinha Portuguesa

(SCROLL DOWN FOR THE TEXT IN ENGLISH)

Desde de 3 de Novembro 2016 que o Rossio conta uma nova esplendorosa loja que não pára de chamar a atenção dos mais pequenos e dos mais curiosos. As cores, o carrossel e a miniatura da roda-gigante embarcam-nos numa viagem para o passado, no mundo do circo, da magia e da alegria.

Actualmente, o edifício sobressai na sua iluminação natalícia e enquadra perfeitamente no meio dos enfeites luminosos que decoram as ruas de Lisboa durante estes dias. Pequeno ou graúdo, estrangeiro ou Português, ninguém resiste parar, sorrir e tirar uma fotografia da loja que é, indiscutivelmente, apelativa.

Então, qual o produto que esta fantástica loja vende? A resposta poderá surpreender-lo (ou não), por ser o produto mais banal que poderemos encontrar: a sardinha em lata. No entanto, não é o peixe em si que está a ser vendido. Não, a sardinha em si é o pretexto. O que se realmente está a vender é a lata em si. É um remate certeiro de marketing!

Ao entrar a loja, encontraremos no seu interior latas com diversas cores. Cada cor é dedicada a uma década. Em total são 10 décadas, ou seja, um século de latas de sardinha. O ano mais antigo é a de 1916 e o mais recente é o nosso ano corrente de 2016. Cada ano comemora um acontecimento e alguns nascimentos que marcaram a história.

De uma forma lúdica, vamos refrescando e aprendendo um pouco da história mundial enquanto os nossos olhos fixam-se nos vários anos. Eu pelo menos, descobri que o walkman, um grande companheiro da minha infância/juventude foi inventado no ano que nasci. Um bom ano, portanto.

Uma lata de sardinha custa 5 euros e é sem dúvida uma prenda e uma recordação original.   Certamente não irá encher a barriga, mas sim os olhos e gerar muitos sorrisos.

Since the 3rd of November 2016, Rossio (Lisboa) has a new splendorous store that keeps attracting the attention from children and from the curious. The colors, the carousel and the miniature of the ferris-wheel bring us on a journey into the past, into the world of circus , magic and joy.

Today, the building stands out in its holiday lighting and fits perfectly amongst the luminous ornaments decorating the streets of Lisbon during these days. From the youngest to the eldest, foreign or Portuguese, no one can resist to stop, smile and take a picture of the store that is, beyond doubt, appealing.

Which is thus, the product being sold in this fantastic store? The answer may surprise you (or not), since its the most banal product we can find: sardines in cans. However, it is not the fish itself that is being sold. No, the sardine itself is the guise. What they are really selling is the can itself. It’s a sure shot of marketing!

When you enter the store, you will find cans of different colors . Each color is dedicated to a decade. In total there are 10 decades, thus, a century of sardine cans. The oldest year is 1916 and the most recent is our current year of 2016. Each year it celebrates an event and some births that marked the history.

In a playful way, we refresh and learn a little more about world history while our eyes scan the several years. I speak for myself – I discovered that the Walkman, a great companion from my childhood / youth, was invented in the year I was born. A good year, therefore.

A can of sardines costs 5 euros and is, undoubtedly, an original present or souvenir. It certainly will not fill your belly, but rather generate many smiles.

 

 

 

 

 

O Presépio Tradicional Português

(SCROLL DOWN FOR THE TEXT IN ENGLISH)

“O que vais pedir ao Menino este ano?” –  Perguntavam os antigos, uma expressão que provavelmente é desconhecida à maioria das crianças, pois o Pai Natal e a Popota assumiram um lugar mais central na vivência da geração do séc.XXI.

Enquanto o Natal  está a tornar-se cada vez mais um estímulo para esvaziar as carteiras de ávidos consumidores, ainda existem tradições que se perduram no turbilhão das mudanças constantes – sonhos e rabanetes, a reunião familiar na Consoada e claro, o Natal nunca estará completo sem o presépio.

No caso concreto de Portugal, o presépio teve uma evolução singular, pois está directamente ligada aos costumes populares. Viveu o seu auge durante os séculos XVII e XVIII, quando a Igreja Católica visava  impressionar as massas populares com a beleza das artes plásticas.

Foi então que nasceu o “Presépio Tradicional Português”, formado pelo o moleiro e o moinho, a lavadeira e o padeiro, bailarinos a dançar ao som de um rancho folclórico, uma mulher com um cântaro na cabeça, os bêbados a cantar e a tropeçar ao sair da taverna, uma família a fazer a matança do porco, as crianças a brincar, o pastor a empurrar a mula, o cão a ladrar, o cavaleiro romântico a oferecer uma flor à sua amada.

No meio da multitude de personagens da vivência quotidiana Portuguesa, encontra-se quase escondida, a Sagrada Família rodeada de anjos e pastores. No final de contas, o Presépio Tradicional Português era um pretexto para retratar a sociedade setecentista e oitocentista.

E então? Que vais pedir ao Menino Jesus este ano?

“What are you asking Child Jesus this year?” it would be said in the old days, an expression that is probably unknown to most children nowadays, for Santa  took a more central place in the daily lives of the 21st century generation.

As Christmas is becoming more and more an incitement to empty the wallets of avid consumers, there are still some traditions that linger in the maelstrom of constant changes – Christmas Desserts, te family reunion at Christmas Eve and of course, Christmas will never be complete without the Christmas crib.

In the specific case of Portugal, the crib had a unique evolution, since it is directly linked to popular customs. It lived its peak during the seventeenth and eighteenth centuries, when the Catholic Church sought to impress the popular masses with the beauty of arts.

It was then that the “Traditional Portuguese Crib” was born. It was formed by the miller and the mill, the washerwoman and the baker, people dancing at the sound of folk music, a woman carrying a pitcher on her head, the drunkars singing and stumbling while exiting the tavern, a family killing a pig, children playing, a shepherd pushing the mule, the barking dog, a romantic knight offering a flower to his beloved.

In the midst of the multitude of characters belonging to the Portuguese daily life, there we find them almost hidden, the Holy Family surrounded by angels and shepherds! At the end of the day, the Portuguese Traditional Crib was a pretext to portray the seventeenth and eighteenth century society.

So, what are you going to ask Baby Jesus this year?

 

 

Bacalhau

(SCROLL DOWN FOR THE TEXT IN ENGLISH)

É impossível dissociar a palavra “bacalhau” do Povo Português. É o maior consumidor mundial de bacalhau e um enorme apreciador deste peixe. Dificilmente sabemos se este gosto nacional é amor ou obsessão. Eu falo por mim. Se estou uma semana no estrangeiro, já estou desejosa de um bom prato de Bacalhau à Brás ou à Lagareiro!

Não há dúvida que a gastronomia portuguesa nunca seria a mesma sem o seu precioso bacalhau. Diz-se que existe uma receita diferente para cada dia do ano, mas já sabemos que a maioria das famílias Lusas irão comer Bacalhau com Grelos na noite da consoada, pois é o que a tradição dita.

A pergunta é, como é que este peixe duro, seco e salgado se tornou tão popular ao ponto de se tornar parte da identidade do Português? Porque o bacalhau não é propriamente um peixe da nossa costa Atlântica. Pelo contrário. O bacalhau é abundante nos mares gélidos da Noruega, Canadá e Polo Árctico. E durante séculos, navios portugueses navegavam faziam a longa e perigosa viagem para o norte, só para buscar bacalhau.

Tudo tem o seu motivo, evidentemente. Vamos recuar no tempo e viajar para o séc. XV. Estamos na época dos Descobrimentos, quando navios exploravam a costa Africana e ansiavam derrotar o gigante Adamastor para poder chegar à Índia. Era frequente estarem 3 meses no mar ser ter a possibilidade de abastecer. Foi assim que se foi à procura um alimento que pudesse ser conservado durante um longo período de tempo e de preferência, que fosse rico em nutrientes e proteínas. Experimentou-se a seca e salga em muitos peixes da costa marítima portuguesa, mas nenhuma respondia às exigências.

Então descobriu-se o ouro dos Sete Mares, o rei de todos os peixes – o bacalhau nórdico. Já os Vikings secavam-no desde o séc.IX e os Bascos mais tarde acrescentaram a técnica da salga. Os portugueses procuraram o bacalhau por necessidade e foram os que o mais cozinharam. São séculos de gerações que certamente mudaram a genética dos Portugueses e estou convicta que algures no ADN Luso há um cromossoma referente ao consumo do bacalhau.

Portugal é um dos exportadores mais importantes do bacalhau na actualidade. Tem uma frota de 13 bacalhoeiros e a pesca faz-se nas águas da Terra Nova (Noruega e de Svalbard) e oferece emprego a cerca de 2.ooo pessoas!

Há um anúncio que diz que o “melhor bacalhau vem da Noruega”. Mas o melhor bacalhau come-se em Portugal.

b1

It is impossible to dissociate the word “bacalhau” (codfish) from the Portuguese people. They are the world’s largest consumer of cod and naturally huge fans of this fish. It’s hard to know if this national liking is love or obsession. I speak for myself. If I’m abroad for a week, I’m already looking forward to a good dish of Bacalhau à Brás or Lagareiro!

There is no doubt that the Portuguese gastronomy would never be the same without its precious codfish. It is said that there is a different recipe for each day of the year, but it’s already known that most Portuguese families will eat codfish with cabbage at Christmas Eve, according to tradition.

The question is, how did this hard, dry and salty fish become so popular to the point of becoming part of the Portuguese’s identity? Cod is not exactly a fish from our Atlantic coast. On the contrary. Cod is abundant in the icy seas of Norway, Canada and the Arctic Pole. And yet, during centuries, Portuguese ships  made the long and dangerous journey to  the north, just to look for codfish.

Everything has its reason, of course. Let’s travel back in time to the 15th century. We are in the days of the Discoveries, when ships explored the African coast and longed to defeat the giant Adamastor (methaphor for Cape Good Hope) so they could reach India. It was common to be 3 months at sea without fresh food. So, the Portuguese started looking for a food that could be preserved for a long period of time and preferably rich in nutrients and proteins. Drought and salting were experienced in many fish from the Portuguese coast, but none met the needed requirements.

It was then that the gold of the Seven Seas, the king of all fishes,  was discovered – the Nordic codfish. The Vikings already dried it in the 9th century and later on, the Basques  added the salting technique . The Portuguese sought the codfish out of necessity and were the ones who cooked it the most. After centuries of generations the genetics of the Portugueses have surely changed . I am convinced that there is a chromosome in Portuguese DNA  that refers to the consumption of codfish.

Nowadays, Portugal is one of the most important exporters of codfish. There are 13 fishing fleets active in the waters of Newfoundland (Norway and Svalbard) that offer employment to around 2,000 people!

There is an advertisement  that says “the best codfish comes from Norway”. But the best codfish is cooked in Portugal.

 

 

 

 

Cortiça

(SCROLL DOWN FOR THE TEXT IN ENGLISH)

Quando pensamos em cortiça, a primeira imagem que nos vem à mente é a rolha da garrafa. Não pensamos em malas ou guarda-chuvas, nem em paredes ou arte e muito menos na NASA.

A cortiça cresce na casca do sobreiro (Quercus suber), uma árvore lhe agrada muito o calor. É por isso que a maioria dos montados de sobro se encontram no Alentejo. São 730 mil hectares e produzem mais de 50% da produção mundial de cortiça!

A cortiça só pode ser extraída pela primeira vez quando a árvore tem cerca de 25 a 30 anos, e é feita no verão, de Junho a Agosto. A extracção pode ser feita anualmente durante 7 a 9 anos, daí que vemos muitas vezes um número na árvore – o indicador que nos diz quantos anos ainda se pode retirar cortiça.

Portanto, em que podemos utilizar a cortiça? Antigamente, os pastores do Alentejo usavam a cortiça para criar os seus pratos, colheres e até mesmo garrafas. Hoje em dia, a cortiça é usada em:

  • isolantes térmicos e sonoros na construção civil (paredes e solos), fresco no verão e quente no inverno. Que mais podemos desejar?

  • tecido de cortiça para acessórios como malas, carteiras, guarda-chuvas, chapéus, sapatos, brincos, pulseiras, colares, e tudo mais que enlouquece mulheres.

  • na construção de instrumentos musicais, mobiliário, nas indústria aeronáutica e automobilística.

e ainda

  • isolamento para as naves espaciais da NASA (empresa Amorim)

  • Um vestido para a Lady Gaga (designer Teresa Martins) que demorou apenas 2 anos a fazer e a artista vestiu para o concerto em Lisboa em Novembro de 2014

  • Obras de arte do artista de Chicago, Scott Gundersen, que recriam rostos como Jeanne ( 3.842 rolhas, 2009) e Grace (9.217 rolhas, 2010)

  • A prancha de surf do surfista havaiano Garrett McNamara

  • Skates do produtor australiano Lavender Archer Cork Skateboards, com o apoio da Amorim

E, não se cheguei a mencionar…

ROLHAS.

vinhos-rolha-aglomerada.jpg

When we think of cork, the first image that comes to mind is the bottle stopper. We do not think of wallets or umbrellas, nor floors or art, much less of NASA.

The cork grows on the bark of the cork oak (Quercus suber), a tree that enjoys the warmth. That is why the most cork oak cultures are found in the province of Alentejo. There are 730 thousand hectares and produce more than 50% of the world’s cork production!

Cork can only be extracted for the first time when the tree is about 25 to 30 years old, and is done in the summer, from June to August. The extraction can be done annually for 7 to 9 years, the reason why we often see a number on the tree – the indicator that tells us how many years are still left to remove cork.

So where can we use cork? Formerly, shepherds from Alentejo used cork to create their plates, spoons and even bottles. Today, cork is used in.

  •   Isolation for construction (walls and floors), cool in the summer and warm in the winter. What more can we wish for?

  • Cork fabric for accessories such as bags, wallets, umbrellas, hats, shoes, earrings, bracelets, necklaces, and everything else that drives a woman mad.

  • Can be used in the construction of musical instruments, furniture, in the aeronautical and automobile industry.



    and also

  • Isolation for NASA spacecrafts (company Amorim)

  • A dress for Lady Gaga (designer Teresa Martins) that took only 2 years to create it. The musician dressed it during the concert in Lisbon in November 2014.

  • Works of art by Chicago artist Scott Gundersen, who recreated faces like Jeanne (3,842 corks, 2009) and Grace (9,217 corks, 2010)

  • Surfboard belonging to Hawaiian surfer Garrett McNamara

  • Skateboards by Australian producer Lavender Archer Cork Skateboards, with the support of Amorim

And, did I mention …

BOTTLE STOPPERS.

1 de Dezembro 1640

(SCROLL DOWN FOR THE TEXT IN ENGLISH)

Era uma vez um jovem rei que sonhava com as aventuras heróicas dos tempos gloriosos dos Cruzados. Um dia, decidiu fazer uma expedição militar no Norte de África. A Batalha de Alcácer-Quibir acabou em tragédia e o rei desapareceu.

D.Sebastião não deixou herdeiros e, após umas quantas peripécias políticas, o monarca de Espanha D.Filipe II, filho de uma princesa Portuguesa, foi aclamado novo rei de Portugal , o primeiro do seu nome.

Durante 60 ano os Portugueses esperaram pacientemente pelo regresso do eterno tão Desejado D.Sebastião. Cantavam que o jovem rei entraria em Lisboa numa manhã de nevoeiro, montado no seu cavalo branco, pronto a salvar Portugal. Esperamos ainda, até o dia de hoje.

Quem se cansou de esperar foram os Quarenta Conjurados (rebeldes nacionalistas Portugueses). No dia 1 de Dezembro 1640 organizaram o golpe de estado revolucionário que devolveu independência a Portugal. Foi o fim da Dinastia Filipina Castelhan. Foi o dia da Restauração da Independência de Portugal, quando o duque de Brangança, D.João IV fora aclamado como o novo soberano Luso.

Hoje, 1 de Dezembro 2016, também comemoramos o restauro deste feriado, junto ao Obelisco da Praça dos Restauradores, o símbolo e monumento da Restauração.

http://www.jn.pt/nacional/interior/presidente-da-republica-diz-que-feriado-de-1-de-dezembro-nunca-deveria-ter-sido-suprimido-5529199.html

dsc_0079_resize_76

Once upon a time there was a young king who dreamed about heroic adventures of the Crusaders’ glorious times. One day he decided to make a military expedition in North Africa. The Battle of Alcácer-Quibir ended in tragedy and the king disappeared.

D.Sebastião left no heirs, and after a few political rallies, the monarch of Spain Philip II, son of a Portuguese princess, was acclaimed as the new ruler of Portugal, the first of his name.

During 60 years the Portuguese waited patiently for the return of the eternal Desired D. Sebastião. They sang the young king would enter Lisbon on a foggy morning, mounted on his white horse, ready to save Portugal. Till the day, we wait still.

The Conjured Forty (Portuguese nationalist rebels)  were tired of waiting after six decades. On December 1, 1640, they organized the revolutionary coup d’etat that restored independence to Portugal. It was the end of the Philipine Castilian Dynasty. It was the day of the Restoration of the Independence of Portugal, when the Duke of Brangança, D.João IV was acclaimed as the new sovereign.

Today, December 1, 2016, we also celebrate the restoration of this holiday, by the Obelisk at the Restauradores Square, the symbol and monument of the Restoration.

lisbonne-rossio_18

 

Pórtico do Mosteiro da Batalha

(SCROLL DOWN FOR THE TEXT IN ENGLISH)

14 de Julho de 1385 teria sido apenas mais um daqueles dias de calor no pico do verão, não fosse o sangrento confronto entre as tropas Portuguesas e as Castelhanas. Não lutavam por uma bela princesa, mas pelo poder de uma coroa, a de Portugal.

Os Portugueses saíram vitoriosos da Batalha de Aljubarrota graças à mente estratégica do Condestável D.Nuno Álvares Pereira.O sentimento nacionalista irradiou-se até aos campónios, que com as suas pás e enxadas ainda causaram danos aos castelhanos como Brites de Almeida, a famosa padeira de Aljubarrota, que matou sete soldados inimigos.

Com um final feliz para Portugal, o Mestre de Aviz é promovido para rei, tornado-se D.João I, o primeiro da dinastia de Aviz. O recém-rei, para celebrar a vitória da independência de Portugal, ordenou a construção do Mosteiro da Santa Maria da Vitória, popularmente conhecida por Mosteiro da Batalha.

D.João I provou ser um rei inteligente ao longo do seu reinado e naturalmente não poupou os seus esforços em usar o novo monumento como pretexto para transmitir uma mensagem claramente política. Esta mensagem podemos ainda hoje “ler” no seu pórtico principal. As imagens religiosas funcionam como um texto visual, numa época em que cerca de 90% da população era analfabeta.

No centro do pórtico, vemos Jesus sentado num trono a segurar uma orbe (Lat. globus crucigerglobo terrestre) . Ele é o rei do Paraíso e está rodeado pelos 4 Evangelistas: São Mateus (anjo), São Marcos (leão), São Lucas (touro), São João (águia). Por baixo, encontramos as imagens dos 12 apóstolos (Judas Iscariotes substituído por S.Paulo)

Os 6 arcos apresentam a população do Paraíso, de forma hierarquizada. De dentro para fora, na volta mais próxima de Cristo encontram-se os Serafins (1), os anjos da primeira categoria, com 3 pares de asas; seguem-se os Querubins (2), os anjos da segunda categoria ou anjos músicos. Depois os Profetas (3) do Antigo Testamento que anunciaram a chegada do Messias, seguidos pelos Reis de Judá (4), coroados e sentados num trono. Finalmente, as 2 voltas exteriores representam Santos e Mártires, sendo o quinto arco do género masculino (5) e o último, do feminino (6).

No entanto, o elemento mais inesperado é aquele que hoje facilmente escaparia ao nossos olhos – vemos no topo uma mulher ajoelhada em frente de um rei (usa coroa e tem a orbe) que está a coroá-la. Para os Católicos esta é claramente a cena da coroação da Virgem Maria a ser proclamada Rainha do Céu pelo seu filho Jesus. Só que, neste caso em concreto, não é nada disso.

É necessário prestar atenção e, se olharmos mais para cima, vemos dois brasões. O da esquerda é o brasão de D.João I e o da direita o da sua esposa, D.Filipa de Lencastre. As figuras abaixo são portanto D.João I a coroar a sua mulher como rainha de Portugal.

Resumindo e concluindo, no centro do pórtico vemos Jesus como o Rei Celestial e protector da Humanidade, enquanto que em cima vemos D.João I como o Rei Terreno e protector de todos os Portugueses. Mensagem clara?

Não há nada como propaganda medieval.

July 14, 1385 would have been just another hot day at the peak of summer, were it not for the gory confrontation between the Portuguese and the Castelian armies. They did not fight for a beautiful princess, but for the power of a crown, the one of Portugal.

The Portuguese came out victorious from the Battle of Aljubarrota thanks to the strategic mind of the Constable D.Nuno Álvares Pereira. The nationalist sentiment  reached even the peasants, who managed to cause some damage to the Castilians with their  shovels and hoes like Brites de Almeida, the baker’s wife, as she killed seven enemy soldiers.

With a happy ending for Portugal, the Master of Aviz was promoted to king, becoming D. John I, the first of the Aviz dynasty. The new king, to celebrate the victory of Portugal’s independence, ordered the construction of the Monastery of Santa Maria of Victory, popularly known as the Monastery of Batalha.

D. John I proved to be an intelligent ruler throughout his reign and naturally spared no effort in using the new monument as a pretext to convey a clearly political message. This message  can still be “read” today on its main portal. Religious images worked as visual texts, at a time when about 90% of the population was illiterate.

At the center of the portal, we see Jesus sitting on a throne holding an orb (Lat. globus cruciger). He is the king of the Paradise and is surrounded by the 4 Evangelists: St. Matthew (angel), St. Mark (lion), St. Luke (bull), St. John (eagle). Below we find the images of the 12 apostles (Judas Iscariot replaced by St. Paul)

The 6 arcs represent the population of the Paradise, in a hierarchical manner. From the arch closest to Christ are the Seraphim (1), the angels of the first category with three pairs of wings; followed by the Cherubim (2), the angels of the second category, or angelic musicians. Afterwards the Prophets (3) of the Old Testament, those who announced the coming of the Messiah; followed by the Kings of Judah (4), crowned and seated on a throne. Finally, the 2 outer arches represent Saints and Martyrs, the male on the fifth arch (5) and the female on the last one (6).

However, the most unexpected element is one that today would easily escape our eyes  – we see at the top a woman kneeling in front of a king (he wears a crown and holds the orb) who is crowning her. For Catholics this is clearly the scene of the coronation of the Virgin Mary,  proclaimed as Queen of Heaven by her son Jesus. Except that, in this particular case, it is nothing of the kind.

It is necessary to pay attention because, if we look up, we see two coats of arms. The one on the left is the coat of arms of D. Jonh I and the one on the right is that of his wife, D. Filipa of Lancaster. The figures are therefore D. John I crowning his wife as Queen of Portugal.

To finalize, in the center of the portal we see Jesus as the  King of Heaven and protector of Humanity, while on the top we see D. John I as the Earthly King and protector of all Portuguese. Is it a clear message?

There is nothing like medieval propaganda.

 

 

Calçada Portuguesa

(SCROLL DOWN FOR THE TEXT IN ENGLISH)

Por todo o Portugal,  desde da maior cidade até às mais pequena aldeia, caminhamos tanto em passeios como em amplas praças sobre a Calçada Portuguesa.

wp_20150913_003Pode-se dizer que a calçada é uma arte funcional, pois exige um conhecimento específico que apenas o calceteiro possui. Ele pega num cubo de calcário ou basalto e vai partindo-a, artesanalmente, rigorosamente e pacientemente até ter o tamanho e a forma desejado para depois a encaixar num verdadeiro puzzle.                                                                                                                                                                                             As pedras brancas e pretas criam padrões, cuja função é puramente decorativa. No entanto as imagens remetem frequentemente ao imaginário Português invocando muitas vezes o outrora passado glorioso dos Descobrimentos. É assim que reconhecemos caravelas, sereias, conchas, ondas e outros motivos na calçada. E ainda se admiram muitos que os Portugueses olham muito para o chão…

A tradição da Calçada Portuguesa tem as suas raízes no séc XVI, quando o rei D.Manuel teve a brilhante ideia de festejar os seus anos com um exuberante e excêntrico cortejo pelas ruas de Lisboa, em que incluía um pesadíssimo elefante. A ideia de criar um pavimento de pedra  foi portanto a solução para suportar o peso do mastodonte.

No entanto, a prática da Calçada Portuguesa só foi introduzida no séc. XIX. A iniciativa foi do Tenente General Eusébio Cândido Pinheiro Furtado, que se lembrou de usar prisioneiros do Castelo de S. Jorge como mão-obra barata (os chamados “guilhetas”) para criar um tapete de pequenas pedras num padrão ziguezague, nos arredores da fortaleza (1840 e 1846). E foi assim que, mais ou menos sem querer, o Tenente Furtado introduziu uma moda usada a nível nacional e (na altura) colonial.

 Throughout Portugal, from the largest city to the smallest village, when we walk on sidewalks or on wide squares, we walk on the Portuguese Cobbelstone (Calçada Portuguesa).

calcada-geometricaWe could say that the cobbelstone is a functional art, because it requires a specific knowledge that only the paver (calceteiro) owns. He picks up a cube of limestone or basalt and breaks it, by hand, rigorously and patiently until it has the desired size and shape so it can fit into a real puzzle.                                                                                                    The white and black stones create patterns, whose function is purely decorative. Nevertheless, the images often refer to the Portuguese imaginary, invoking often the once glorious past of the Discoveries.We can recognize caravels, mermaids, shells, waves and other motifs on the pavements. And many people still wonder why the Portuguese stare a lot at the floor …

The tradition of the Portuguese Cobbelstone has its origins in the 16th century, when King D. Manuel had the brilliant idea of celebrating his birthday with an exuberant and eccentric procession through the streets of Lisbon, which included an immense elephant. The idea of creating a stone pavement was therefore the solution to support the weight of the mastodon.


However, the practice of the Portuguese Cobbelstone was only introduced in the 19th century. The initiative was implemented by Lieutenant General Eusébio Cândido Pinheiro Furtado, who used prisoners from the Saint George Castle (Lisbon)  as cheap labor (the so-called “guilhetas”) to create a carpet of small stones in a zigzag pattern on the outskirts of the fortress (1840 to 1846). And so, more or less unintentionally, Lieutenant Furtado introduced a fashion used at a national and (at that time) colonial level.

São Martinho

(scroll down for the text in English)

Era 11 de Novembro, por volta do ano 334.

Um cavaleiro cavalgava apressado, desejoso de encontrar um abrigo com uma lareira para que pudesse se aquecer. Estava um tempo frio e tempestuoso. O céu estava encoberto e pesado com nuvens negras que descarregavam fortes aguaceiros. O vento soprava aumentando o sofrimento ao jovem cavaleiro.

Eis que, a certa altura, se cruzou com um homem pobre. O mendigo, prematuramente envelhecido pelos tormentos  da vida, esticou-lhe a mão e pediu esmola. Todo o seu corpo tremia de frio. A sua roupa era velha, os tecidos finos, desgastados e rasgados pelo passar de muitos meses. O cavaleiro sentiu compaixão pelo infeliz mendigo, cujo corpo estava cruelmente exposto aos elementos. Não tinha esmola, mas ofereceu-lhe algo de melhor. O cavaleiro empunhou a sua espada e cortou metade da sua capa.

Deus, lá no Céu, testemunhou este belo gesto humano. O seu coração maravilhou-se com a bondade do cavaleiro que sacrificou metade da sua capa, metade da sua protecção contra o frio para ajudar um desconhecido. Deus quis recompensá-lo. E fê-lo. Com o seu sopro divino, fez com que as nuvens se dissipassem. O céu abriu-se e o sol benzeu o mundo com a sua luz e o seu calor. O cavaleiro levantou os olhos e sorriu. Já não passava frio.

O cavaleiro, pois claro, chamava-se Martinho, o santo de Tours (França). A sua festa é comemorada hoje, dia 11 de Novembro, com castanhas assadas e jeropiga. E é com a festa deste santo que nos despedimos do Verão e anunciamos o Inverno. Pois em Portugal e Espanha, usa-se a expressão “Verão de S.Martinho” para referir ao período curto de dias quentes e solarengos em Novembro, antes da chegada do frio.

moreau_saintmartin
Gustave Moreau. Saint Martin (1882)

It was the 11th November, around the year 334.

A horseman rode hastily, eager to find a shelter with a fireplace where he could warm up. It was cold and stormy. The sky was overcast and heavy with black clouds, pouring out strong showers. The wind blew, increasing the suffering of the young knight.

Behold, at a certain moment he met a poor man. The beggar, prematurely aged by the torments of life, stretched out his hand and asked for change. His whole body shook from the cold. His clothes were old, the fabric thin, worn and torn by its use during many months. The horseman felt compassion for the unfortunate beggar whose body was cruelly exposed to the elements. He had no money, but offered him something better. The knight took his sword and cut off half of his cloak.

God, in Heaven, witnessed this beautiful human gesture. His heart marveled at the kindness of the knight who sacrificed half of his cloak, half of his protection against the cold to help a stranger. God wanted to repay him. And so he did. With his divine breath he made the clouds dissipate. The sky opened and the sun blessed the world with its light and its warmth. The horseman looked up and smiled. It was no longer cold.

The knight, of course, was called Martin, the saint of Tours (France). His festivity is celebrated today, at November 11, with roasted chestnuts and jeropiga (young wine). And it is with the feast of this saint that we pay farewel to the summer and announce the winter. For in Portugal and Spain, the expression “Summer of S.Martinho” is used to refer to the short period of warm and sunny days in November, before the arrival of the cold.

First blog post

(scroll down for the text in English)

É oficial!

Comecei o meu novo Blog.

Vai ser uma versão simples, bilingue (PT/EN) com uma foto e uma pequena história. Vou tentar por um Post todos os dias, com imagens e relatos sobre Portugal, outro país ou qualquer outra coisa que me fascine. Também aceito pedidos. Ainda está na fase experimental, mas já tem um artigo.

It’s official!
I started my new blog.

It will be a simple, bilingual (PT / EN) version with a photo and a short story. I will try for a Post every day, with images and reports about Portugal, another country or anything that fascinates me. I’m also accepting requests It’s still in the trial phase, but you already have an article.