Pórtico do Mosteiro da Batalha

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14 de Julho de 1385 teria sido apenas mais um daqueles dias de calor no pico do verão, não fosse o sangrento confronto entre as tropas Portuguesas e as Castelhanas. Não lutavam por uma bela princesa, mas pelo poder de uma coroa, a de Portugal.

Os Portugueses saíram vitoriosos da Batalha de Aljubarrota graças à mente estratégica do Condestável D.Nuno Álvares Pereira.O sentimento nacionalista irradiou-se até aos campónios, que com as suas pás e enxadas ainda causaram danos aos castelhanos como Brites de Almeida, a famosa padeira de Aljubarrota, que matou sete soldados inimigos.

Com um final feliz para Portugal, o Mestre de Aviz é promovido para rei, tornado-se D.João I, o primeiro da dinastia de Aviz. O recém-rei, para celebrar a vitória da independência de Portugal, ordenou a construção do Mosteiro da Santa Maria da Vitória, popularmente conhecida por Mosteiro da Batalha.

D.João I provou ser um rei inteligente ao longo do seu reinado e naturalmente não poupou os seus esforços em usar o novo monumento como pretexto para transmitir uma mensagem claramente política. Esta mensagem podemos ainda hoje “ler” no seu pórtico principal. As imagens religiosas funcionam como um texto visual, numa época em que cerca de 90% da população era analfabeta.

No centro do pórtico, vemos Jesus sentado num trono a segurar uma orbe (Lat. globus crucigerglobo terrestre) . Ele é o rei do Paraíso e está rodeado pelos 4 Evangelistas: São Mateus (anjo), São Marcos (leão), São Lucas (touro), São João (águia). Por baixo, encontramos as imagens dos 12 apóstolos (Judas Iscariotes substituído por S.Paulo)

Os 6 arcos apresentam a população do Paraíso, de forma hierarquizada. De dentro para fora, na volta mais próxima de Cristo encontram-se os Serafins (1), os anjos da primeira categoria, com 3 pares de asas; seguem-se os Querubins (2), os anjos da segunda categoria ou anjos músicos. Depois os Profetas (3) do Antigo Testamento que anunciaram a chegada do Messias, seguidos pelos Reis de Judá (4), coroados e sentados num trono. Finalmente, as 2 voltas exteriores representam Santos e Mártires, sendo o quinto arco do género masculino (5) e o último, do feminino (6).

No entanto, o elemento mais inesperado é aquele que hoje facilmente escaparia ao nossos olhos – vemos no topo uma mulher ajoelhada em frente de um rei (usa coroa e tem a orbe) que está a coroá-la. Para os Católicos esta é claramente a cena da coroação da Virgem Maria a ser proclamada Rainha do Céu pelo seu filho Jesus. Só que, neste caso em concreto, não é nada disso.

É necessário prestar atenção e, se olharmos mais para cima, vemos dois brasões. O da esquerda é o brasão de D.João I e o da direita o da sua esposa, D.Filipa de Lencastre. As figuras abaixo são portanto D.João I a coroar a sua mulher como rainha de Portugal.

Resumindo e concluindo, no centro do pórtico vemos Jesus como o Rei Celestial e protector da Humanidade, enquanto que em cima vemos D.João I como o Rei Terreno e protector de todos os Portugueses. Mensagem clara?

Não há nada como propaganda medieval.

July 14, 1385 would have been just another hot day at the peak of summer, were it not for the gory confrontation between the Portuguese and the Castelian armies. They did not fight for a beautiful princess, but for the power of a crown, the one of Portugal.

The Portuguese came out victorious from the Battle of Aljubarrota thanks to the strategic mind of the Constable D.Nuno Álvares Pereira. The nationalist sentiment  reached even the peasants, who managed to cause some damage to the Castilians with their  shovels and hoes like Brites de Almeida, the baker’s wife, as she killed seven enemy soldiers.

With a happy ending for Portugal, the Master of Aviz was promoted to king, becoming D. John I, the first of the Aviz dynasty. The new king, to celebrate the victory of Portugal’s independence, ordered the construction of the Monastery of Santa Maria of Victory, popularly known as the Monastery of Batalha.

D. John I proved to be an intelligent ruler throughout his reign and naturally spared no effort in using the new monument as a pretext to convey a clearly political message. This message  can still be “read” today on its main portal. Religious images worked as visual texts, at a time when about 90% of the population was illiterate.

At the center of the portal, we see Jesus sitting on a throne holding an orb (Lat. globus cruciger). He is the king of the Paradise and is surrounded by the 4 Evangelists: St. Matthew (angel), St. Mark (lion), St. Luke (bull), St. John (eagle). Below we find the images of the 12 apostles (Judas Iscariot replaced by St. Paul)

The 6 arcs represent the population of the Paradise, in a hierarchical manner. From the arch closest to Christ are the Seraphim (1), the angels of the first category with three pairs of wings; followed by the Cherubim (2), the angels of the second category, or angelic musicians. Afterwards the Prophets (3) of the Old Testament, those who announced the coming of the Messiah; followed by the Kings of Judah (4), crowned and seated on a throne. Finally, the 2 outer arches represent Saints and Martyrs, the male on the fifth arch (5) and the female on the last one (6).

However, the most unexpected element is one that today would easily escape our eyes  – we see at the top a woman kneeling in front of a king (he wears a crown and holds the orb) who is crowning her. For Catholics this is clearly the scene of the coronation of the Virgin Mary,  proclaimed as Queen of Heaven by her son Jesus. Except that, in this particular case, it is nothing of the kind.

It is necessary to pay attention because, if we look up, we see two coats of arms. The one on the left is the coat of arms of D. Jonh I and the one on the right is that of his wife, D. Filipa of Lancaster. The figures are therefore D. John I crowning his wife as Queen of Portugal.

To finalize, in the center of the portal we see Jesus as the  King of Heaven and protector of Humanity, while on the top we see D. John I as the Earthly King and protector of all Portuguese. Is it a clear message?

There is nothing like medieval propaganda.

 

 

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